18.5.04

Pelas sintonias deixadas percebi que não sou a única a descobrir o trabalho Nuno Júdice. Quando começei a ler Poesia Reunida - 1967-2000 não consegui parar, gostei imenso, foi um prémio merecido. Para quem quiser descbrir um pouquinho da sua obra pode vir aqui

Dicionário

As palavras mais belas são as que nascem
do teu corpo: cabelos, lábios, ombros, seios,
até o ventre, e o que entre as coxas se esconde.
Escrevo-as devagar, como se lhes tocasse; e
cada uma delas é como um espelho, de onde
se libertam as tuas mãos, os dedos, um joelho,
olhos que beijo num murmúrio de segredos.

E pedes-me significados, símbolos, primeiros
e segundos sentidos. Não te sei dizer senão que
corpo é o teu corpo, centro um secreto umbigo,
pela a mais branca neve no horizonte desta
subida leve. Se me estendes os braços, entro
num abrigo de floresta; se me abres os ramos,
é na mais doce gruta que entramos.

Precipitam-se sinónimos, adjectivos sem
objectivo, pronomes enfáticos e possessivos,
sílabas perdidas na falésia do desejo. Mas
fecho o livro. Estou farto de palavras, é a ti
que eu quero. E faço-as voltar até de onde
nasceram: cabelos, lábios, ombros, seios, até
o ventre, e o que entre as coxas se esconde.

Nuno Júdice in O Estado dos Campos retirado do ardente mente


by pedro gomes
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